26/10/09 - 08h03
Fonte: Flávio Araújo : flaypi@uol.com.br
Quando ingressei na Rádio Bandeirantes, final de 1957, ele ainda estava no Rio de Janeiro, onde logo a seguir passaria a ser o nosso “correspondente carioca”.
Mauro Bezerra Pinheiro, uma figura notável!
Jornalista consagrado no Rio, bacharel em direito que jamais pensou em ser advogado, escrevera durante muito tempo na revista Sport Ilustrado, da qual fui colecionador em minha adolescência.
Mauro era repórter e grande estudioso do futebol já nessa época.
Mesmo nunca tendo pensado em ser advogado era um tremendo polemista e em sua vinda para São Paulo tornou-se comentarista.
Quando chegou era o único “alienígena” do time.
A Bandeirantes, é fato conhecido e comentado, sempre procurou gente do interior para formar em seus diversos setores.
No esporte, então, a caipirada tinha maioria quase que total.
Edson Leite, o que me convidara, nasceu em Bauru.
Era o diretor-comercial e por baixo do pano tinha sempre a última palavra em todos os assuntos da grande emissora.
Mas o chefe de esportes era Pedro Luis, o grande narrador e não entrei no time sem o seu “nihil obstat”, evidentemente.
Pedro Luis era mineiro de São Tomaz de Aquino, cidade fronteiriça no nordeste do Estado de São Paulo.
A mesma cidade onde nasceu o querido “tio” Vicente Leporace.
Tinha então a equipe de esportes da Bandeirantes o Mauro Pinheiro e o José Paulo de Andrade, como os únicos que não eram caipiras legítimos.
Creio que o Zé Paulo, que depois se desviou para o jornalismo com grande destaque, é o único daquela equipe de locutores que dominou a audiência nacional por mais de duas décadas ainda em atividade na emissora.
Zé Paulo, paulistano.
Mauro podia esnobar um pouco mais: nascera em Berna, na Suíça.
Contava sempre que na Copa do Mundo de 1954 fora visitar a maternidade onde nasceu.
O pai era médico, membro importante da famosa estirpe dos Bezerra Cavalcanti de Pernambuco e fazia um curso naquele país quando Mauro deu seu primeiro vagido.
Foi registrado no Consulado Brasileiro e depois, quando completasse a maioridade, seguindo a lei, teria que confirmar se queria mesmo a nacionalidade brasileira ou viveria como suíço.
É claro que Mauro jamais se lembrou de tomar a decisão no tempo certo e só foi pensar no assunto quando resolveu se casar, já um tanto quanto entrado em invernos e verões.
Deu um trabalho enorme.
Creio que o primeiro apelido veio através do Luis Aguiar, irreverente como ele só.
Mauro, baixinho e gordinho, só se vestia de terno completo, calça, colete e paletó e nunca, mas nunca mesmo, sem gravata, a comum ou a borboleta.
Relógio de bolso com a reluzente corrente de ouro balançando.
Botão de comendador no caseado da lapela e na boca o eterno charuto fumegante.
No Rio de Janeiro todo ano era homenageado na Churrascaria Recreio como o cliente com melhor frequência durante todo o percurso.
Houve um ano em que não faltou uma noite sequer.
Visualizem a figuraça!
Com um charuto imenso, mesmo apagado, entre os dedos.
Falando alto e argumentando em defesa de suas teses já que sempre tinha uma, discutindo sempre acompanhado de retumbantes gestos manuais.
Primeiro foi “Comendador esfera”; depois, “Senador da República”...
Foi mesmo o Luis Aguiar quem assim o batizou, tenho certeza.
Sempre tive muito contato pessoal com o Mauro.
Viajávamos muito em companhia um do outro, ele como comentarista e eu como narrador.
Corremos quase toda a Europa, as Américas, esse Brasil de norte ao sul e deu para conhecer bem seus hábitos de solteirão (só casou depois dos quarenta e muitos) e de grande apreciador de bons vinhos e ... o que é pior: inveterado fumante de imensos charutos.
Quantas brigas tivemos pelos charutos que Mauro acendia, um atrás do outro (?!?).
E ainda contrariando os ensinamentos de Getúlio Vargas, que sempre dizia que charuto só se acende uma vez.
Apagou, joga fora.
Com Mauro, não.
O monstrengo podia apagar-se por estar excessivamente melado que ele o acendia novamente e ai o cheiro ficava ainda mais insuportável.
Vale ressaltar aqui que sou um grande defensor dos direitos alheios, desde que não fumem ao meu lado.
A fumaça, sopre o vento para que lado soprar, vem sempre em direção ao meu nariz.
Que pode não ser tão grande quanto o do Ennio Rodrigues, que tem o apelido muito sugestivo de “Fornalha”.
Mas, também tenho um “naso” respeitável.
A fumaça de qualquer cigarro parece um carro que vem em alta velocidade quando tento atravessar uma rua meio na galega: vem sempre sobre mim.
E não é que o Mauro acendia charutos em plena cabine de transmissão?
A princípio sofri muito, mas depois de algum tempo consegui “exemplá-lo”, como dizia meu querido pai.
Vale ainda acrescentar que somos ambos, Mauro e eu, filhos de nordestinos, o que explica também as implicâncias, as idiossincrasias e ... algumas afinidades.
A grande diferença é que ele era da nobreza e eu ... da pobreza.
Sempre o admirei por sua retidão, pelo seu ar blasé de quem não se importa jamais se a mula é manca ...
Problema meu, sempre às voltas com minha eterna posição de responsabilidade, de respeito aos horários.
O certo é que o Mauro, que parecia levar a vida na flauta, tinha também o seu lado preocupado, só que o escondia muito bem.
Mas, que gostava de acender um charuto em ocasiões nada apropriadas é inegável.
Uma madrugada, em Londres, voltando de um restaurante no Soho, coração da grande cidade, frio lá fora de cortar e mais o vento que zunia eis que ele acende um charuto dentro do taxi totalmente fechado.
O motorista “estopou” e bronqueou firme e forte, como sabem bronquear os ingleses, que de pacíficos só tem a fama.
Mauro não quis nem saber.
Entre o charuto e o frio abriu a porta e saltou fora resmungando.
Eu segui no taxi e ele demorou duas horas para cruzar o gelado Kensington Park e chegar ao nosso hotel uns cinco quilômetros adiante.
Chegou gelado, mas não apagou o charuto.
Ora, pois, se iria dobrar-se aos berros de um motorista de taxi de Sua Majestade Britânica !!!
Um outro episódio de que não me esqueço aconteceu em Milão e vale a pena eu contar e vocês me acompanharem na leitura.
Jantávamos no La Tampa, uma casa típica do norte da Itália que tinha como prato forte um espaguete à moda que era (e ainda deve ser) uma delícia.
Algo assim como um espaguete a carbonara, mas muito, muito especial.
O vinho era colocado na mesa de todos.
Uma espécie de garrafão com as medidas como as antigas garrafas de uísque.
Tomava quem quisesse e ao final pagava-se o que fora consumido.
Se quisesse outra bebida, era só pedir.
Deliciávamo-nos com a pasta e regávamo-nos com o capitoso vinho italiano, que no caso chamava-se Petroio, e era da melhor qualidade.
Conversa solta sobre música, mulheres e ... vinhos.
Nada de futebol que era nossa profissão e a razão de nossa viagem.
As amargas, não.
Eis que senta-se próximo a nós um casal facilmente identificável como “from United States of América”.
Escolhe como todos o macarrão e comete o supremo sacrilégio:
O homem e a mulher molham a boca no vinho, não gostam e pedem ... Coca-Cola.
Foi a gota.
Mauro Pinheiro não se segurou nas tamancas.
- Onde já seu viu semelhante ofensa? Inundam o mundo com essa porcaria, impingem a mesma à nossa juventude e depois desprezam um vinho tão delicioso para engolir essa beberagem?
E foi o Mauro por ai afora, castigando, com o seu falar já meio enrolado pelo encorpado Petroio, o mau gosto dos americanos.
Foi tentando ir até eles, falar-lhes duramente de seus costumes alimentares, perguntar se não se contentavam em comer mal em seu país, onde tudo tem gosto de isopor, gritar-lhes na cara que eram imperialistas contumazes que queriam dominar o mundo com propaganda à custa de seus dólares.
Eu, fazendo tudo para acalmá-lo até que não aguentou mais.
Deu um chute num pé da mesa que fez balançar a botelha do bom vinho e saiu intempestivamente , furioso, caminhando no frio da noite em direção ao nosso hotel.
Só no dia seguinte nos falamos e ... rachamos a conta. (Continua)
A coluna desta semana é uma adaptação de capítulo do meu livro “O Rádio, o Futebol e a Vida” lançado em 2001 pela Editora Senac e pela extensão que vai tomando peço licença para prosseguir na próxima.
Flávio Araújo, jornalista e radialista escreve semanalmente neste site. Correspondência para o E-mail: flaypi@uol.com.br
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