Ribeirão Preto, 9 de Fevereiro de 2012
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05/10/09 - 08h06

RJ foi escolhido. Agora temos que evitar que os corruptos de sempre se locupletem com as Olimpíadas

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Fonte: Flávio Aráujo : flaypi@uol.com.br

Enquanto as comemorações continuam no Rio de Janeiro algumas cabeças pensantes já se organizam com as sinalizações emanadas pela certeza que o ônus sempre sucede o bônus.

A vibração que a palavra do sisudo Jaques Rogge, o presidente do Comitê Olímpico Internacional, com seu sotaque francês de belga se expressando em inglês ainda ressoa pelo mundo afora e naturalmente muito mais no Brasil, e mais do que naturalmente, muito mais no Rio de Janeiro.

Foi uma vitória dos planos elaborados pelos brasileiros; foi uma tendência política de universalização dos jogos ou finalmente: foi a sorte que acompanha o presidente Lula, o pretenso novo Midas da história brasileira?

Acho que uma amálgama de tudo isso permitiu que a escolha do Rio de Janeiro finalmente se tornasse realidade depois de sucessivas e fracassadas tentativas.

O próprio Luiz Ignácio Lula da Silva é a prova maior de que água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

A grande questão que nos assalta neste momento em que a euforia não cede ainda lugar à reflexão se responde por si só.

Os políticos que foram a Copenhague já voltarão pensando em colher os louros da escolha do Rio em forma de votos.

Afinal, já que se julgam os donos da conquista da sede olímpica têm o direito de desejar estar no poder quando a mesma se efetivar de verdade.

A todos nós resta uma posição de muita atenção já que o fantasma da corrupção ronda cada passo em que o desembolso de um centavo se faz por aqui.

Quando a coisa vai para a casa de bilhões então ...

Que não se aceite jamais a velha tese do “rouba, mas faz” e tudo seja muito bem fiscalizado e haja transparência absoluta em todos os gastos.

Inocência de minha parte em elucubrar na esperança de honestidade por parte desse pessoal que “ganhou” as olimpíadas para o Brasil?

Ora, são os mesmos que até agora estão encrencados nas contas dos super-faturamentos e outras maracutaias que proliferaram no Pan do Rio e que estão presentes em todos os empreendimentos deste país.

Ai estão muitas obras do PAC suspensas pelo crivo do Tribunal de Contas da União para ilustrar à saciedade aquilo de que falo.

Assim mesmo não podemos permitir, agora que a sorte está lançada, que os descaminhos com o dinheiro público impeçam que o Rio de Janeiro realize uma grande olimpíada.

Não vou repetir, e isso está em toda a imprensa honesta do país, as esperanças positivas de tudo o que de bom um evento de tal magnitude pode significar para o Brasil.

E mesmo condenando com veemência a corrupção endêmica neste país sabemos que na adversidade temos plantado e colhido.

Concordo: muita gente fica rica do dia para a noite, principalmente quando o país é bafejado com eventos e obras de todos os aspectos.

É só tomar conhecimento dos impérios construídos pelos detentores de posições políticas oligárquicas e nepóticas de avô para neto e sem esquecer os filhos pelo meio.

Gente que nunca pegou no pesado e fez do faturamento político (não só dos votos) a razão do chamado patrimonialismo vigente e por eles defendido com unhas e dentes.

A obrigação de cada um de nós é fiscalizar, é manter olhos abertos, é cobrar e exigir prestação de contas para cada prego ou cada tijolo gasto.

Isto posto, e para não dizer que não falei de flores, deixa que a imaginação tome conta do espaço e que recorde a importância que o esporte puro e saudável teve e tem em minha vida e nada vida de muitos de nós.         

Estudante no então Ginásio Estadual Fernando Costa, de minha cidade natal, nossas atividades esportivas eram intensas e vibrantes.

As aulas de Educação Física comandadas pelo sempre lembrado e amado Professor Machado eram alegres festivais.

Presidente Prudente, como retrato do Brasil, foi ponto canalizador de raças que se entendiam harmonicamente e que se fundiram nesse processo de miscigenação que redundou no brasileiro capaz e cordial.

Numa dessas aulas foram anunciados os nomes de dois novos professores que viriam como convidados participar por um pequeno período de nossas atividades.

Alberto Marson e Massenet Sorcinelli acabavam de voltar de Londres, onde a equipe de basquete brasileira, da qual faziam parte, conquistara um brilhante terceiro lugar, uma medalha de bronze, ganhando todas e só perdendo um cotejo.

Bombarda, outro grande valor do nosso basquete de então, e que não fora às Olimpíadas, também fazia parte do grupo que nos iria transmitir ensinamentos valiosos.

Eram as Olimpíadas de 1948, as primeiras do pós-guerra. 

Num exercício passadista/futurista penso hoje que nossa admiração daquele momento só poderia encontrar emoção igual se um dia recebêssemos em nossa escola a visita dos primeiros astronautas que foram à Lua.

Eram outros os tempos, era outro o Brasil.

Sub-desenvolvido, “cachorro vira-lata no futebol”, na expressão meio velhaca de Nelson Rodrigues, mendigo de emoções em todos os sentidos.

Só falava ao seu favor, em nosso peito, o fervor de sermos brasileiros e amarmos a terra onde nascemos.

Agora o Brasil vai sediar uma Olimpíada!!!

Fruto dos anos róseos que vislumbramos, dos ventos favoráveis que nos impulsionam, o projeto brasileiro bateu grandes concorrentes e na disputa contra Estados Unidos, Espanha e Japão fomos os escolhidos.

Perdoem que fale em termos de país.

Bem sei que as Olimpíadas são evento esportivo de uma cidade, no caso, o Rio de Janeiro.

Mas, unidos nesse sentimento de brasilidade que vibra da Amazônia aos Pampas sentimos que elas serão de todos nós.

Fato raro, o Brasil vai ter a Copa de Futebol aqui em 2014 e dois anos depois os Jogos Olímpicos.

Uma repetição de Atlanta/92 e Copa do Mundo/94 nos Estados Unidos.

Só que isso aconteceu até então com um país verdadeiramente rico.

A oportunidade de comprovação do nosso crescimento é inegável aos nossos olhos.

No contrafluxo, aos olhos do mundo a cobrança será pesada.

Não se ganha o direito de sediar dois eventos desse porte sem pagar o preço.

O lado civismo é realçado, mas a folha de transparência tem que ser visível a olho nu.

Quando se fala em algo tão grandioso como uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada no Brasil o maior temor vem dessa maldita corrupção que viceja por aqui como praga daninha.

Desculpem a frase pleonástica.

A veracidade justifica.

Ai está o recentíssimo caso do vazamento das questões do Novo Enem.

Mostrar para o mundo, mas para nós mesmos que podemos superar esse lado ruim de nosso país é a maior oportunidade que esses eventos nos darão.

Flávio Araújo, jornalista e radialista escreve semanalmente neste site. Correspondência para o E-mail: flaypi@uol.com.br      

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