05/10/09 - 08h06
Fonte: Flávio Aráujo : flaypi@uol.com.br
Enquanto as comemorações continuam no Rio de Janeiro algumas cabeças pensantes já se organizam com as sinalizações emanadas pela certeza que o ônus sempre sucede o bônus.
A vibração que a palavra do sisudo Jaques Rogge, o presidente do Comitê Olímpico Internacional, com seu sotaque francês de belga se expressando em inglês ainda ressoa pelo mundo afora e naturalmente muito mais no Brasil, e mais do que naturalmente, muito mais no Rio de Janeiro.
Foi uma vitória dos planos elaborados pelos brasileiros; foi uma tendência política de universalização dos jogos ou finalmente: foi a sorte que acompanha o presidente Lula, o pretenso novo Midas da história brasileira?
Acho que uma amálgama de tudo isso permitiu que a escolha do Rio de Janeiro finalmente se tornasse realidade depois de sucessivas e fracassadas tentativas.
O próprio Luiz Ignácio Lula da Silva é a prova maior de que água mole em pedra dura tanto bate até que fura.
A grande questão que nos assalta neste momento em que a euforia não cede ainda lugar à reflexão se responde por si só.
Os políticos que foram a Copenhague já voltarão pensando em colher os louros da escolha do Rio em forma de votos.
Afinal, já que se julgam os donos da conquista da sede olímpica têm o direito de desejar estar no poder quando a mesma se efetivar de verdade.
A todos nós resta uma posição de muita atenção já que o fantasma da corrupção ronda cada passo em que o desembolso de um centavo se faz por aqui.
Quando a coisa vai para a casa de bilhões então ...
Que não se aceite jamais a velha tese do “rouba, mas faz” e tudo seja muito bem fiscalizado e haja transparência absoluta em todos os gastos.
Inocência de minha parte em elucubrar na esperança de honestidade por parte desse pessoal que “ganhou” as olimpíadas para o Brasil?
Ora, são os mesmos que até agora estão encrencados nas contas dos super-faturamentos e outras maracutaias que proliferaram no Pan do Rio e que estão presentes em todos os empreendimentos deste país.
Ai estão muitas obras do PAC suspensas pelo crivo do Tribunal de Contas da União para ilustrar à saciedade aquilo de que falo.
Assim mesmo não podemos permitir, agora que a sorte está lançada, que os descaminhos com o dinheiro público impeçam que o Rio de Janeiro realize uma grande olimpíada.
Não vou repetir, e isso está em toda a imprensa honesta do país, as esperanças positivas de tudo o que de bom um evento de tal magnitude pode significar para o Brasil.
E mesmo condenando com veemência a corrupção endêmica neste país sabemos que na adversidade temos plantado e colhido.
Concordo: muita gente fica rica do dia para a noite, principalmente quando o país é bafejado com eventos e obras de todos os aspectos.
É só tomar conhecimento dos impérios construídos pelos detentores de posições políticas oligárquicas e nepóticas de avô para neto e sem esquecer os filhos pelo meio.
Gente que nunca pegou no pesado e fez do faturamento político (não só dos votos) a razão do chamado patrimonialismo vigente e por eles defendido com unhas e dentes.
A obrigação de cada um de nós é fiscalizar, é manter olhos abertos, é cobrar e exigir prestação de contas para cada prego ou cada tijolo gasto.
Isto posto, e para não dizer que não falei de flores, deixa que a imaginação tome conta do espaço e que recorde a importância que o esporte puro e saudável teve e tem em minha vida e nada vida de muitos de nós.
Estudante no então Ginásio Estadual Fernando Costa, de minha cidade natal, nossas atividades esportivas eram intensas e vibrantes.
As aulas de Educação Física comandadas pelo sempre lembrado e amado Professor Machado eram alegres festivais.
Presidente Prudente, como retrato do Brasil, foi ponto canalizador de raças que se entendiam harmonicamente e que se fundiram nesse processo de miscigenação que redundou no brasileiro capaz e cordial.
Numa dessas aulas foram anunciados os nomes de dois novos professores que viriam como convidados participar por um pequeno período de nossas atividades.
Alberto Marson e Massenet Sorcinelli acabavam de voltar de Londres, onde a equipe de basquete brasileira, da qual faziam parte, conquistara um brilhante terceiro lugar, uma medalha de bronze, ganhando todas e só perdendo um cotejo.
Bombarda, outro grande valor do nosso basquete de então, e que não fora às Olimpíadas, também fazia parte do grupo que nos iria transmitir ensinamentos valiosos.
Eram as Olimpíadas de 1948, as primeiras do pós-guerra.
Num exercício passadista/futurista penso hoje que nossa admiração daquele momento só poderia encontrar emoção igual se um dia recebêssemos em nossa escola a visita dos primeiros astronautas que foram à Lua.
Eram outros os tempos, era outro o Brasil.
Sub-desenvolvido, “cachorro vira-lata no futebol”, na expressão meio velhaca de Nelson Rodrigues, mendigo de emoções em todos os sentidos.
Só falava ao seu favor, em nosso peito, o fervor de sermos brasileiros e amarmos a terra onde nascemos.
Agora o Brasil vai sediar uma Olimpíada!!!
Fruto dos anos róseos que vislumbramos, dos ventos favoráveis que nos impulsionam, o projeto brasileiro bateu grandes concorrentes e na disputa contra Estados Unidos, Espanha e Japão fomos os escolhidos.
Perdoem que fale em termos de país.
Bem sei que as Olimpíadas são evento esportivo de uma cidade, no caso, o Rio de Janeiro.
Mas, unidos nesse sentimento de brasilidade que vibra da Amazônia aos Pampas sentimos que elas serão de todos nós.
Fato raro, o Brasil vai ter a Copa de Futebol aqui em 2014 e dois anos depois os Jogos Olímpicos.
Uma repetição de Atlanta/92 e Copa do Mundo/94 nos Estados Unidos.
Só que isso aconteceu até então com um país verdadeiramente rico.
A oportunidade de comprovação do nosso crescimento é inegável aos nossos olhos.
No contrafluxo, aos olhos do mundo a cobrança será pesada.
Não se ganha o direito de sediar dois eventos desse porte sem pagar o preço.
O lado civismo é realçado, mas a folha de transparência tem que ser visível a olho nu.
Quando se fala em algo tão grandioso como uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada no Brasil o maior temor vem dessa maldita corrupção que viceja por aqui como praga daninha.
Desculpem a frase pleonástica.
A veracidade justifica.
Ai está o recentíssimo caso do vazamento das questões do Novo Enem.
Mostrar para o mundo, mas para nós mesmos que podemos superar esse lado ruim de nosso país é a maior oportunidade que esses eventos nos darão.
Flávio Araújo, jornalista e radialista escreve semanalmente neste site. Correspondência para o E-mail: flaypi@uol.com.br
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