31/05/10 - 07h59
Fonte: Flávio Araújo : flaypi@uol.com.br
Carlos Caetano Bledorn Verri é o nome da fera que dirige com punhos e mente de aço a atual seleção brasileira de futebol.
Não exibia nada dessa face em sua alegre primeira infância na simplicidade de Ijuí, pleno interior gaucho.
Por se ajustar tão bem à paisagem interiorana onde nasceu e viveu seus primeiros anos foi batizado com o apelido que pegou como visgo de jaca mole.
No futebol já entrou como Dunga e com esse nome alçou vôo pelo Brasil, pela Alemanha, Itália e Japão .
O apelido até jocoso afinava com seus traços físicos, era um dunguinha, tipo universal das histórias infantis.
Ao pé da letra e sem o físico para atrapalhar, Zangado lhe cairia melhor.
Jogador nada além de esforçado teve uma fase da seleção brasileira batizada com seu nome: a era Dunga.
Dizem que foi Fernando Collor o padrinho.
Não se deixou abater com a derrota na Copa de 1990 na Itália (Lazzaroni foi o Judas) e deu a volta com o triunfo de 1994 nos Estados Unidos.
Essa Copa marcou seu íntimo da forma mais complicada e que só um bom freudiano pode deslindar.
No seu âmago o que mais quer é revivê-la na África do Sul.
Quer ganhar outra vez, mas dentro de seu melhor estilo por ter bem decorada a lição vivida em 1994.
A vitória sempre apaga pegadas menos luminosas que o caminho possa ter guardado.
O triunfo é borracha que deleta qualquer deslize.
Ao vencedor as batatas, escreveu o sábio mestre Machado de Assis.
A atual fase de Dunga como técnico da seleção brasileira também foi batizada com o seu nome e seu estilo.
Desde aquele começo na época do “sugerimento” exposto em seu modo de trajar na partida inicial, Oslo, na Noruega, o palco.
Desde então mudou muito o irascível Carlos Caetano.
A nova era Dunga teve muitas vitórias e pouco futebol.
O jogador mediano pendurou as chuteiras, olhou a paisagem e sem fazer vestibular, sem cursar faculdade e muito menos pós-graduação foi ao Olimpo.
Bem, falta o título na África do Sul para selar o diploma.
Na seleção brasileira de futebol jamais houve um técnico com tantos poderes.
Flávio Rodrigues da Costa, um ditador, escalava reservas de seu time, o Vasco, como titular do selecionado para espicaçar os paulistas.
Seria Deus se não se deparasse um dia com um bando atrevido de valentes uruguaios numa partida em 1950 que o país jamais conseguiu esquecer.
Vicente Feola, o primeiro campeão só foi à Suécia por ser figura de absoluta confiança de Paulo Machado de Carvalho.
Aymoré Moreira deu sequência ao libreto enquadrando-se também de forma total ao plano elaborado para a conquista da Copa anterior.
Ambos eram criaturas afáveis e de bom relacionamento com a imprensa.
Mário Zagallo em 1970 entrou com a desconfiança de todo mundo já que o país sempre avalizou o trabalho de João Saldanha .
O próprio comando escolheu Zagallo cercado de muita desconfiança.
Ganhou e se firmou como homem de grupo, fiel escudeiro de João Havellange, com direito a novos chamados, mas, sempre homem de esquema.
Carlos Alberto Parreira seguiu o modelo.
Antes de tudo um homem educado e estudioso do tema ninguém da imprensa jamais teve queixas de Parreira.
Luis Felipe Scolari soube se escorar na corda bamba e exerceu comando extra em 2002.
A recusa ao nome de Romário fala por si e reforça a condição de comandante de Felipão.
Mas nada que se possa comparar aos poderes extraordinários de Dunga.
Todo mundo sabe que Ricardo Teixeira o chamou para ridicularizar os técnicos cabeças coroadas de nosso futebol,
Luxemburgo como exemplo maior.
Mas, Dunga pegou o pião na unha.
Chamou quem quis, ignorou quem não quis, não dá a mínima para a torcida, esnoba até os patrocinadores da CBF e responde aos jornalistas quase sempre com ironia e como quem terça armas com adversários.
Estará, porém, sorridente para Fátima Bernardes daqui para frente no Jornal Nacional.
Mas aí não vale, é pura imprensa digestiva que ali estará para levantar a bola do técnico e jamais produzirá polêmicas construtivas em seu caminho.
Até onde o levará esse caminho?
Tudo depende de onde o Brasil chegar nos gramados sul-africanos.
Sem imagem de técnico, sem pose de técnico, ensaiando muito para não escorregar nas entrevistas Dunga sabe que subiu acima de seus valores.
Só podemos almejar que não caia, que não se afunde na imensidão de seus poderes na hora do vamos ver.
Flávio Araújo, jornalista e radialista escreve semanalmente neste site. Consulte matérias anteriores no link competente na primeira página.
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