Ribeirão Preto, 8 de Fevereiro de 2012
[ Busca avançada ]

16/11/09 - 07h53

Ganso e Neymar estão verdes. Ainda terão que comer muito feijão

Tamanho da letra: A- A+

Fonte: Flávio Araújo : flaypi@uol.com.br

José Macia, o sempre veloz e bom chutador Pepe veio lá do fundo da Praça, como os locutores costumavam nomear o local de onde eram cobrados os livres de longa distância.

Era de tão longe que os torcedores nem prestaram muita atenção.

O goleiro, que não se preocupou com uma barreira nos trinques nem viu por onde a bola, ou melhor, a bala, passou.

Só ouviu o farfalhar dos cordéis balançando.

A torcida inglesa calou-se.

O velho estádio de Wembley, em Londres, se pudesse, ficaria ajoelhado, mudo, quedo, reverente. 

Foi em 1963, excursão da seleção brasileira, quando o lance se deu.

O nome do goleiro?

Gordon Banks, o que fez aquela defesa na cabeçada de Pelé em 1970 no México e que muitos apontam como a maior defesa de um goleiro em uma Copa do Mundo.

Folclore.

Houve muitas outras tão difíceis quanto aquela.

Verdade: o tiro de Pepe era algo formidável.

De dar medo.

Um míssil de longo alcance daqueles que a molecada de meu tempo dizia que “se não matar aleja (sic).

Estava lá e fui testemunha na cor e no vivo. E no som que minha voz pode produzir narrando o feito.

 

Antes desse existiram outros gols históricos consignados através de cobranças de faltas por artilheiros do Brasil.

Havia sempre uma safra de grandes cobradores para fazer a alegria dos locutores esportivos.

O primeiro que narrei foi marcado por Cláudio Cristóvão Pinho, o grande ponteiro revelado pelo Santos, com rápida passagem pelo Palmeiras onde foi campeão no épico certame de 1942.

Aquele em que o Palmeiras teve que mudar até de nome e entrou em campo carregando a bandeira brasileira.

Pátria é Pátria, com P maiúsculo. Futebol pode até se escrever em caixa baixa.

Cláudio, que era santista de nascimento e coração brilhou mesmo foi no Corinthians e encerrou carreira no São Paulo.

Cobrava faltas num estilo muito diferente daquele que Pepe usou contra Banks.

A cobrança de Cláudio era sutil.

A bola saia como que acariciando o ar, descrevendo volteios como uma valsa de Strauss.

Tanto é que esse gol a que me refiro, marcado contra o Benfica de Portugal ganhou um nome especial.

Foi na decisão de um torneio internacional no Pacaembu, gol da vitória (Corinthians 2 Benfica 1, em 10 de junho de 1955, gol na saudosa e sempre lembrada concha acústica do belo estádio que Paulo Maluf desfigurou.

Costa Pereira, grande goleiro português, apelidou-o de “golo de curvita”.

Depois vieram as folhas secas de Waldir Pereira, o Didi.

Também estava lá naquele que classificou o Brasil para a Copa do Mundo de 1958: Brasil 1 Peru 0, dia 21 de abril de 1957.


Impossível relatar a extensa relação de grandes cobradores de faltas que nosso futebol produzia nos velhos tempos.

Até Garrincha, que não era de chutar em gol fez os seus de faltas em Copas do Mundo.

O primeiro contra a Inglaterra em 1962 e o segundo contra a Bulgária na malfadada Copa de 1966, em Liverpool, na estréia brasileira no pior mundial da nossa história futebolística.

Nesse jogo Pelé fez o outro (2x0 o resultado final) também de falta.

Por sinal que Pelé era um soberbo cobrador de faltas num estilo intermediário entre violento e colocado.

Mais para colocado.

Mesmo tendo sido um dos nossos grandes cobradores Pelé não era tão bom quanto Didi ou Zico nessa função específica.

Inesquecível também foi o gol de Rivellino diante da Alemanha Oriental em Hannover, Copa do Mundo de 1974.

A partida estava prá lá de encrencada.

A retranca germânica era mais sólida que o Muro de Berlim que estava no auge.

O apitador também não gostava da gente.

Claramente.

Foi aquele mesmo Clive Thomas, galês, que nessa partida marcou, em cima da hora, um sobrepasso do goleiro Emerson Leão.

Você já viu juiz marcar sobrepasso quando o jogo vai acabar e lá no placar um magro 1 a 0 define quem segue na disputa e quem arruma a mala?

Numa Copa do Mundo?

Pior ainda aconteceu em 1978.


E com esse mesmo juiz.

Foi ele que terminou o jogo do Brasil contra a Suécia na Copa desse ano, na Argentina, quando a bola, viajando na cobrança de um escanteio veio para a cabeça de Zico que a botou nas redes.

O juiz anulou alegando que encerrara o jogo antes que Zico enfiasse a cabeça na bola.

Ora, pinhões paraguaios!

Eu sei e você sabe que tanto o sobrepasso como o tempo regulamentar encerrado estão capitulados na lei do futebol.

Mas, manda o bom senso que não sejam marcados em tais circunstâncias.

O gol de Zico em Mar Del Plata (1x1 contra a Suécia) poderia até produzir uma situação completamente diferente para o Brasil naquele Mundial.

Viagens seriam evitadas, adversários seguintes seriam outros.

Enfim...

Enfim que estou falando de cobradores de falta e não de árbitros que nos prejudicaram ao longo dos tempos.

Até porque existiram os que nos beneficiaram também.

Volto ao gol de Rivellino, em Hannover em 1974.

Jairzinho imiscuiu-se, é bem o termo, bem no meio do muro humano de Berlim e quando Rivellino chegou na bola o futuro “furacão” literalmente jogou-se de costas no terreno.

A bola passou milimetricamente no espaço deixado pelo corpo de Jairzinho.

1 a 0 no placar e o Brasil foi em frente.

Naquele tempo os estrangeiros, notadamente os europeus, dificilmente cobravam uma falta diretamente ao gol.

 

Por mais próxima que estivesse a grande área preferiam sempre um passe do que o chute ao gol.

Porque não tinham chutadores.

Hoje, nossas lições e nossos valores espalhados pelo mundo quase inverteram a situação.

Nossos ensinamentos foram muito bem decorados e temos visto sequências de belas cobranças de faltas em quase todos os países que elegeram o futebol como seu principal esporte.

Aqui no Brasil na atualidade os grandes cobradores rareiam.

Outrora todo time tinha um, pelo menos.

Hoje, um dos principais é um goleiro, Rogério Ceni, que começou imitando o paraguaio Chilavert e possui uma porção de seguidores.

Prova de que se o talento é inato o treino o desenvolve.

Também não temos mais técnicos que pensem em fundamentos.

Temos sim, mas só na base.

Para nossos “xingadores” oficias da cúpula a tática e o chuveirinho é o remédio mais a mão.

A técnica, que cada um traga consigo, do berço e das divisões de base.

Que vemos então?

O Brasil acaba de disputar dois mundiais de categorias inferiores.

Inferiores na idade, bem entendido.

Pela ordem houve o Sub/20 no Egito e depois o Sub/17 na Nigéria.

Entre os jovens com até 20 anos ainda conquistamos o segundo lugar.

Mas, sem brilho, sem jamais jogar bem.

Na decisão por penalidades máximas instalou-se a vergonha.

A partida foi contra a Gana e o goleiro africano simplesmente correu sobre a linha como a lei lhe faculta.

Em duas cobranças estava junto ao poste direito de sua moldura.

E a bola foi chutada diretamente em seu corpo.

Displicência, insipiência, nervosismo dos chutadores?

Tudo isso junto. E mais um pouco.

A falta de uma orientação por parte do técnico.

Simplesmente o cobrador abaixou a cabeça, foi para a bola e ... Gana, campeã mundial.

Não havia um técnico para ver isso num país com tanta tradição entre cobradores de faltas e penalidades máximas?

No país de Pepe, de Pelé, o inventor da paradinha, de Didi, de Zico, de Rivellino, de tantos ...

Uma vergonha o que fizeram os meninos lá no Egito.

Na Nigéria os garotos do Sub/17 não passaram sequer da primeira fase.

Ai não há nem necessidade de críticas para maus cobradores de penalidades.

Máximas ou mínimas.

Meninos talentosos individualmente, mas sem nenhum sentido de jogo de conjunto.

Esse é um problema que vai perdurar enquanto não tivermos técnicos de verdade.

Não esses senhores que ganham fortunas para ficar à margem das laterais gritando esbaforidos, como loucos de hospício, palavrões em cascata, querendo “jogar” o jogo.

Técnico que realmente se preza armaria o time, treinaria jogadas, corrigiria erros e iria lá para cima ver do alto se os meninos aprenderam a lição.

Se não aprenderam é porque não ensinou direito.

É bem verdade, e só prá encerrar, que aqueles grandes cobradores de faltas citados não precisaram de técnicos para desenvolver seus dotes.

Mas os de hoje, precisam e muito.

E, como Paulo Henrique Ganso e Neymar, tão badalados, nem só de técnicos.

Também de muitos sacos de feijão a serem devorados.


Flávio Araújo, jornalista e radialista escreve semanalmente neste site. Correspondência para o E-mail: flaypi@uol.com.br 

Comente a notícia no Facebook























© 2002-2012 Ribeirão Preto Online - Um novo jeito de ver Ribeirão. Todos os direitos reservados.

Ribeirão Preto Online, Ofertas de Veículos e Imóvel da Cidade são produtos da Empresa Brasileira de Mídia Online. É proibida a reprodução do conteúdo deste portal em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem prévia autorizaçao.