07/06/10 - 08h21
Fonte: Flávio Araújo : flaypi@uol.com.br
A tecnologia que move o mundo não move o futebol, que felizmente dentro do campo ainda vive dos recursos específicos dos artistas da bola.
Não move mesmo e também a capacidade do homem de bem desempenhar suas funções quando só a mente, isolada, tem que funcionar.
Continuamos no comando da máquina e só enquanto esse aspecto persistir a vida terá sentido.
Por que estou divagando sobre esses temas se minha intenção aqui é falar só de futebol?
Exatamente por estar esse esporte como sempre em alta por mais uma Copa do Mundo entrando em cena e mais do que nunca recebendo influência tecnológica.
Não seria estúpido a ponto de não reconhecer o quanto os atletas tem se beneficiado de fatores extras enquadrados no vasto mundo da tecnologia.
Na fisiologia, na alimentação supinamente planejada, nos artefatos, alfaias que melhoram visual e potencial.
É só lembrar do estrago que fazia na cabeça de um jogador aquela bola de couro com costura exposta, com cadarços que a fechavam e feriam como estiletes.
Pensar que quando Nilton Santos chegou para treinar com seu par de chancas argentinas em baixo do braço recebeu a primeira reprimenda do irascível técnico Flávio Costa:
“”Jogador meu só joga com chuteira de bico quadrado. Sem frescuras.”
Nilton Santos, um virtuose, jamais perdoou o técnico que o deixou de fora na Copa de 1950.
Não vou entrar nessa questão da Jabulani, a controvertida bola da Adidas para a Copa da África do Sul e que está sendo demonizado por uma infinidade de atletas.
Faz parte do contexto dos atletas detonar a bola antes das Copas do Mundo e o nosso objetivo como apreciadores do jogo e que a mesma continue sendo fiel somente àqueles que saibam cortejá-la.
Dentro do tema a que me proponho, se as chuteiras de hoje, as caneleiras, as luvas para os goleiros, as camisetas anatomicamente dispostas se adequariam a todos os nossos craques da seleção de 1970 qual dos atuais valores teria um lugar naquela equipe?
E quantos daquele time poderiam jogar na seleção que vai estrear no dia 15 contra a Coréia do Norte?
Nenhum dos guerreiros de Dunga calçaria aquelas chuteiras, mas muitos dos que usaram as de 70 calçariam como titulares os calçados hoje em uso.
Considero uma bobagem inominável essas comparações que se fazem entre jogadores de uma época e de outra.
Escalar, por exemplo, a melhor seleção de todos os tempos.
Mas, não nutro dúvidas que Clodoaldo, Carlos Alberto, Gerson, Rivellino e Tostão entrariam hoje como titulares.
De Pelé, nem falo.
Não dispensariam, lógico, o material moderno.
Em contrapartida qual dos jogadores atuais entraria como titular naquele?
O goleiro Júlio Cesar, com certeza.
E finito.
Até porque se a defesa de 70 fazia água ela só não era melhor por decisão do técnico Mario Jorge Lobo Zagallo.
O time de Saldanha tinha defensores melhores a começar por Djalma Dias e Joel Camargo.
Estou vendo nas seleções que se preparam para o mundial um panorama cinzento.
Um nivelamento de forças que levarão a muitos empates com poucos ou até sem gols.
Com todo mundo jogando na Europa onde o talento é ofuscado pela ditadura dos treinadores o pragmatismo ganha terreno.
O lado lúdico e espetacular do futebol se não ganha com a tecnologia perderá sempre para os esquemas que o sufocam.
Flávio Araújo, jornalista e radialista escreve semanalmente neste site. Consulte matérias anteriores no link correspondente na primeira página.
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