01/11/09 - 09h36
Fonte: Flávio Araújo: flaypi@uol.com.br
Como prometi na coluna passada ai vai a sequência de capítulo do livro “O Rádio, o Futebol e a Vida”, em que narro minhas vivências radiofônicas com o companheiro Mauro Bezerra Pinheiro em nossas viagens para transmissões esportivas pelos muitos caminhos deste mundão de meu Deus.
Certa vez viajávamos de Belgrado, creio para Lisboa. Minto ! Mauro vinha de París, e eu vinha de Roma.
O fato aconteceu em 1968 durante uma longa excursão da Seleção Brasileira de Futebol.
Havíamos feito uma transmissão realmente de Belgrado, a então capital da união de países que formavam a antiga Iuguslávia ( Brasil 2 Iuguslávia 0, em 25 de junho de 1968).
Como nossa missão na excursão terminara ali e teríamos uma semana de folga Mauro foi à sua sempre amada París e eu preferi ficar em Roma visitando meu querido e sempre lembrado amigo Dante Foresi.
Mauro vinha de Paris em companhia de Jorge Cury e João Saldanha.
Os dois desceriam pela manhã na capital portuguesa e pegariam o vôo noturno da Varig que sairia na madrugada seguinte para o Brasil.
Cury e Saldanha, que formavam a dupla (locutor e comentarista da Rádio Globo do Rio) foram dois celebérrimos “mãos de vaca” assumidos.
Daqueles que se considerariam sumariamente ofendidos se convidados a pagar um cafezinho.
Saldanha foi o rei dos hotéis de 5 dólares e tinha uma coleção dos mesmos em todas as partes do mundo em um caderninho especial que só mostrava para os muito íntimos.
E o Cury o acompanhava em todas.
Então, para passar um dia em Lisboa e viajar na madrugada seguinte, nada de hotel, mesmo que fosse de 5 dólares.
A embaixada brasileira tinha poltronas excelentes...
Mauro Pinheiro seguiu o roteiro que havíamos combinado seguindo para o Hotel Avenida Pálace, onde sempre nos hospedávamos, e os dois, Cury e Saldanha, para a Embaixada do Brasil onde seriam bem recebidos.
E nada pagariam.
Ao chegar ao Hotel, Mauro é informado que este está superlotado, e sem reservas não temos a menor chance de ali nos hospedar.
O combinado era que ele tomaria um apartamento para nós dois já que eu chegaria um pouco mais tarde.
Mauro, então, pediu para deixar as malas na recepção e saiu caminhando pela Avenida da Liberdade a respirar o ar português na captura de um outro hotel.
Logo depois chego à portaria do Avenida Pálace a tempo de ouvir o diálogo entre um cidadão com uniforme do hotel e que vem lá do fundo com o outro que está no balcão de recepção e a quem eu estaria me dirigindo.
- Ligaram da Embaixada do Brasil à procura de um certo Senador Mauro Pinheiro. Verifiquei, mas o Senador não está cá hospedado. É para informar-lhe que os senhores Cury e Saldanha vão passar para irem às compras em conjunto.
Pronto! Acendeu-se o farol! Caiu a ficha!
O homem da recepção saiu correndo pela rua e não voltou enquanto não trouxe o “senador” Mauro Pinheiro pelo braço.
- Senador, daremos um jeito de hospedá-lo. Temos um apartamento que reservamos para ocasiões muito especiais como esta e não o deixaríamos nunca ao relento. Por que não falou logo que era um senador da República irmã que é o Brasil ?
Avistamo-nos, Mauro e eu, trocamos um olhar de confidentes, abraçamo-nos e fui logo transformado em assessor senatorial.
Não só nos hospedaram como nos colocaram em apartamentos contíguos e de luxo! Pelo preço comum.
Nada como a posição social ... ou melhor, a posição política do indivíduo.
Fico a imaginar essa passagem e não posso deixar de pensar nesses escândalos em que o nosso Senado vem promovendo através de ações deletérias de seus pares.
As passagens até para namoradas, as viagens recreativas com tudo pago pela magra bolsa do povo.
E isso tudo são miudezas entre as benesses de que goza a classe política.
Ah, Brasil ...
Outro caso dos mais bizarros aconteceu no Recife.
Haveria um jogo da seleção brasileira contra um combinado pernambucano, preparativos do selecionado nacional para a Copa do Mundo da Alemanha em 1974.
Jornalistas do país inteiro bordejando pelas areias das belas praias do Recife.
Mauro era na época presidente da Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo e Francisco José, esse mesmo hoje de cabelos brancos e repórter do primeiro time da tevê Globo (excelente mergulhador que eu conhecera quando enfrentávamos a piscina do hotel em Guanajuato, no México, em 1970) era presidente da Associação dos Cronistas Brasileiros, (Abrace) uma espécie de filha da entidade paulista, esta um modelo de organização, apesar do nome mais pomposo da segunda.
Os dois, Mauro e Chico José pensam em algo de grandioso para confraternização e depois decidem por um churrasco na praia de Boa Viagem, onde se hospedava a maioria de sulistas.
Antes, porém, um joguinho de futebol amigável entre cronistas esportivos do sul contra os do nordeste.
Tudo isso à noite, em frente ao hotel onde estávamos.
Mauro Pinheiro, a tudo só olhando de sua sacada no terceiro andar, o indefectível charutão fumegando entre os dedos.
E ainda os inseparáveis binóculos com os quais sempre comentava de perto os lances que aconteciam ao longe.
Bola vai, bola vem, surge um carro de polícia e rapidamente os fardados entram em ação mostrando uma placa e dizendo que o futebol ali é proibido.
As traves só não tinham ainda sido arrancadas por incúria da administração.
Eles, os policiais, porém, não deixariam de cumprir sua obrigação.
E já vão se retirando levando o bem mais precioso da brincadeira: a bola, que compráramos fazendo uma “vaquinha” entre os disputantes.
Chico José argumenta que é o presidente da Abrace, que se trata de um jogo de confraternização entre pernambucanos e paulistas, que a atitude dos policiais é arbitrária.
Mas, nada consegue até que diz, quase sem querer: “E foi o Senador Mauro Pinheiro quem combinou o jogo!”
Soltou-se na cabeça do policial a ficha que faltava:
- O Senador Mauro Pinheiro que permitiu? Ele está no Recife? Me diga onde está Sua Excelência?
Francisco José apontou a sacada do hotel do outro lado da rua. O policial para ali se dirigiu e, perfilando-se, gritou:
- Senador, o jogo pode continuar?
E Mauro ordena que sim, com a cabeça, com a maior sisudez. O Sargento (tinha que ser um sargento!) nem tergiversa. Bate uma continência arretada ao mesmo tempo em que grita:
- Suas ordens serão cumpridas, Senador. Pernambuco tem muita honra em recebê-lo.
E o joguinho seguiu maneiro ...
Mauro Pinheiro já nos deixou há algum tempo. Seu coração não resistiu aos percalços e emoções que sofreu depois de deixar a Bandeirantes em 1981.
Já não era mais o roliço “comendador” batizado por Luiz Aguiar nos tempos em que passou a fazer parte do time.
O diabetes o obrigara a emagrecer e a deixar de lado as massas e os vinhos encorpados.
Na Jovem Pan, para onde se transferiu a concorrência era bravíssima e desleal e o cerco estava fechado.
Melhor seria se houvesse atendido o convite para ir comigo para a Gazeta, pois também deixei a Bandeirantes logo após sua saída.
E por motivos que se interligam.
Não quis. Preferiu a Pan.
Não fosse isso e juntos teríamos transmitido a Copa da Espanha em 1982.
Seu coração bateria ainda por mais algum tempo e eu implicaria com mais algumas dezenas de charutos.
Assim é a vida.
Ocasiões há em que fico imaginando as ruas que juntos percorremos.
As transmissões sem conta em que vibramos lado a lado.
O dia (em 1963) em que fomos chamados para atender um telefonema da Bandeirantes diretamente na BBC de Londres e informados no ar que nossos vencimentos tinham sido aumentados sem nenhuma reivindicação de nossa parte.
É que houvera por aqui uma debandada com Pedro Luis e um time inteiro saindo para compor a equipe da Rádio Tupi.
Houvera, seis meses antes, o primeiro êxodo, comandado por Darcy Reis e Braga Junior que levou um time para transmitir futebol na Rádio Record.
Mauro e eu ficamos quase sozinhos segurando o rojão por algum tempo.
Depois, fomos buscar Fiori Gigliotti, descontente na Jovem Pan para onde fora em 1959 e Ennio Rodrigues, uma promessa de Araraquara que se tornaria bela realidade.
Assim, refizemos o time que brilhou até que a casa passou ao comando dos herdeiros.
Ai, deu no que deu.
Nunca mais a Bandeirantes liderou as transmissões de futebol.
Nesses momentos de recordação, ainda mais numa data como esta, dia dos Finados, parece que sinto o cheiro do charuto do Mauro Pinheiro.
Que já não é tão malcheiroso como o sentia.
Influência das paragens da casa do Pai, que tem muitas moradas como sabemos e numa das quais o eterno Senador está habitando com certeza.
Acendendo charutos ... sem sequer usar das prerrogativas que a posição de Senador obviamente tem que lhe dar até no céu ...
Flávio Araújo, jornalista e radialista escreve aos domingos neste espaço. Correspondência para o E-mail: flaypi@uol.com.br
26/10/09 | Coluna Flávio Araújo
Um brasileiro nascido na Suíça. Mauro Pinheiro, figura notável da era de ouro do rádio esportivo© 2002-2012 Ribeirão Preto Online - Um novo jeito de ver Ribeirão. Todos os direitos reservados.
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