16/01/12 - 08h13 (Atualizado em 16/01/12 às 08h22)
Fonte: Flávio Araújo (flaypi@uol.com.br)
Candidatar-se a realização de uma grande festa para a qual não se está preparado foi um dos piores legados do governo anterior do Brasil.
Principalmente quando o promotor do convite sabe, com antecedência, que não estará na festa e nem se responsabilizará pela recepção aos convidados.
Quando o país prometeu realizar o grande baile, tinha conhecimento que o único recurso a seu favor era a habilidade como dançarino.
Afinal era de futebol que se tratava.
O mais foi demagogia pura, bravata ao vivo e em cores.
Os problemas que envolvem a preparação para realização de uma Copa do Mundo de Futebol já são suficientemente amplos para que o Brasil tivesse que se preocupar ainda com acréscimos que não deveriam fazer parte do jogo.
As questões políticas que envolvem o grupo brasileiro refestelado no poder e responsável pela organização da Copa pesam tanto ou mais do que as dificuldades para construção de estádios e todos os compromissos assumidos.
O Brasil foi escolhido para sede da Copa em 2007, já se vão 4 anos e lá vai fumaça e desde essa data, escolhido o país, começou o jogo de empurra.
No plano nacional caiu um Ministro do Esporte, enquanto a presidência da CBF foi bombardeada pelas acusações nos desentendimentos políticos entre a pessoa física de seu eterno presidente e o respectivo da FIFA.
Para Ricardo Teixeira, a presidência da FIFA era o trajeto em suas nada modestas pretensões que o livraria de todos os malfeitos ao futebol do país.
Para Joseph Blatter a manutenção do cargo era e é questão de sobrevivência em todos os aspectos.
Pode ser até que haja uma intenção verdadeira de sua parte de limpar a FIFA de um lixo que a bem da verdade ele apenas ajudou a acumular.
Ou Jack Warner e outros membros da quadrilha, ali já não estavam desde os tempos de Dom Havelange?
Instaladas essas questões vem as suas respectivas consequências.
Sabemos que os trabalhos no país para composição do cenário da Copa estão muito atrasados e não adiantam os desmentidos que seguem cada novo verificação.
Sabemos também da mentira, não adianta buscarmos eufemismos, a palavra é essa mesma, mentira, que foi a promessa do presidente da CBF de que a Copa se faria sem que dinheiro do país entrasse no bolo.
A Copa do Mundo é um evento da FIFA, que num sistema bem antigo faz um revezamento (a seu critério) entre os países interessados em sediá-la.
De nada adianta Romário, hoje deputado federal, encher a boca e, demagogicamente, dizer que a Copa do Mundo é do povo brasileiro, que todos nós sabemos que não é nada disso.
Romário, no entanto, parece ser uma das poucas figuras lúcidas e com bons princípios a se movimentar nesse meio e buscar pontos de apoio para que interesses do país sejam salvaguardados.
Ainda aguardamos a votação da Chamada Lei Geral da Copa e temos a certeza que mesmo depois dessa providência alguns choques com a FIFA permanecerão inalterados.
Uma nova visita do secretário geral da entidade vai acontecer nesta semana e espera-se que o carro ande alguns metros pelo menos no lado político.
Com algumas definições nesse lado importante da questão, poderemos ter também algum progresso na questão material da Copa.
Sentimos que o Ministro do Esporte, deputado Aldo Rebelo, não se conscientizou da necessidade de pegar no breu e colocar a posição do país de forma mais clara e objetiva perante a FIFA.
Por outro lado, a par do embate político entre Ricardo Teixeira, que tenta se esconder em baixo de uma capa chamada Ronaldo Nazário de Lima, e Joseph Blatter, os interesses do país e o compromisso assumido tem que falar mais alto.
Ronaldo, com seus múltiplos interesses materiais ficará tão somente ao sabor das ondas, enquanto Teixeira pensa no mesmo como um mamulengo ao seu dispor.
Quando Ronaldo se compenetrar do papel que lhe está sendo imposto, nesse palco estará um pouco mais rico e... nada mais que isso.
Problemas éticos?
Ele é especialista em contorná-los, igual ao que fazia com seus marcadores em campo.
De Pelé é justo esperar ainda algo de valioso a favor do Brasil além dos muitos gols marcados pela seleção?
Pelé, hoje, é um ícone no futebol brasileiro, um biscuit nas festas da FIFA e, ao mesmo tempo em que abraça Ricardo Teixeira, chama Joseph Blatter de amigo.
Cultuemos as glórias de Pelé como craque maior que foi, mas saibamos que nesse imenso jogo de interesses ele é apenas uma figura de retórica.
A FIFA tem tentáculos vorazes, plenos de cupidez, mas exige aquilo que faz parte de seu “modus operandi”.
Se deixarem, se introduzirá nas leis do país, as modificará dentro de seus interesses e levará a parte mais saborosa do bolo.
Acreditar que apenas Romário, um jovem deputado com muita vontade de crescer na política, será suficiente para defender nossos interesses será muita ingenuidade de nossa parte.
A esperança é que Aldo Rebelo tenha a força que as mãos ávidas de seu antecessor não tiveram e entre com tudo e mais um pouco defendendo os interesses brasileiros e se colocando acima dessa imensa teia de aranha, plena de picuinhas e conchavos.
Afinal, ele é a voz do governo que assumiu a responsabilidade de organizar a Copa, não importa que o presidente fosse outro.
Ou não vale mais o velho ditado?
Qual mesmo?
Quem pariu Mateus que o embale.
NÃO ESPERE MUITO DO PAULISTÃO
(Coluna “EM CIMA DA BOLA” do jornal AGORA/SP de 15 de janeiro.)
O exemplo deve sempre vir do alto e não estou falando nenhuma novidade.
Que a maioria dos estádios para a Copa de 2014 estão atrasados isso é do conhecimento de todo mundo.
Enquanto os entraves burocráticos são discutidos e a FIFA procura a cada dia introduzir mais seus vorazes tentáculos e modificar leis que já fazem parte de conquistasdos brasileiros, nossos estádios marcham lentamente.
Quando marcham.
Não falemos nem daquelas promessas de obras que melhorariam a vida do brasileiro quando a conta da Copa estiver arrancando lágrimas de nossos olhos.
Esses são outros quinhentos.
Mas, se o exemplo de cima não vem, o que acontece em baixo é de estarrecer.
Os campeonatos regionais vivem sua antevéspera.
Suas portas estarão abertas para o Paulistão já na próxima semana.
Enquanto os clubes tem sempre a desculpa de que os regionais são o complemento da pré-temporada e aí é que acertam suas equipes, os detalhes de logística no mesmo tem aspecto distinto.
Ninguém vai consertar o que falta em seus estádios durante a competição.
Não se compreende de forma alguma que equipes que tanto lutaram para o retorno à divisão principal do futebol paulista, vejam a aproximação da rodada inicial e não tenham casa para morar.
Isso é um descalabro.
Algumas agremiações trabalham a toque de caixa para arrumar suas dependências, não mais que dentro dos critérios mínimos exigidos pela Federação.
Quando lutaram em campo para ter o direito de pensar na promoção não sabiam dessas necessidades?
Não é nada alvissareiro que o SP/12 demonstre que além de equipes tão somente em formação, muitos estádios estejam longe daquilo que promete o Estatuto do Torcedor.
(Flávio Araújo)
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