23/11/09 - 07h59
Fonte: Flávio Araújo : flaypi@uol.com.br
Estou tão cansado de escrever sobre a semana de horrores que viveu o futebol no Brasil e no mundo que vou me dar o direito de fugir ao tema que se tornou ponto de encontro para todos os críticos nestes dias.
É verdade que houve o consolo, para mim, de tudo o que se falou dos 40 anos que marcaram o feito histórico do Rei do futebol, o seu milésimo gol.
Entrou em contraposição com tanta loucura: erros (ou dolos) nas arbitragens, gramados transformados em cenários de luta livre, manipulação de mais de 200 resultados (por enquanto) na Europa e segue o enterro.
Então, encontrei uma variante e ... vamos a ela.
Estão se tornando raras as chamadas pratas da casa no nosso futebol.
O fato vem no contrafluxo do feito: nunca nossos clubes investiram tanto nas divisões inferiores onde novas estrelinhas começam a espargir brilho antes da hora.
Os chamados gênios precoces, comuns no cinema, na música, na vida enfim.
No passado era muito simbólico lembrar Shirley Temple e a magia contida em suas interpretações infantis.
Era o esteriótipo para as revelações que murcham quando chega a puberdade.
Hoje o nosso futebol, referência internacional, está prenhe de meninos que demonstram tudo aquilo que de mágico o futebol pode alcançar brilhando com intensidade incomum e prenunciando futuro luminoso.
Para se apagar de maneira fugaz quando é chegado o momento de mostrar grandeza definitiva.
Não posso dizer que tenha gostado desses jogos derradeiros no ano de 2009 da seleção brasileira em seu périplo pelas Arábias.
Vencer a Inglaterra é sempre bom, mas, vencer aquela seleção da Inglaterra é diferente.
Era um time reserva com apenas um titular que enfrentamos no Katar.
Um magro 1 a 0 seria muito pouco para sinalizar o que efetivamente seria esperado de um jogo do Brasil contra um esfacelado selecionado de qualquer país do mundo, fosse Inglaterra, Alemanha, Espanha ...
Pior, não jogamos bem e tivemos imensa dificuldade diante dos apenas bons marcadores ingleses.
O jogo seguinte, no Omã era previsível também.
O Brasil nunca tem grandes desempenhos contra seleções inexpressivas.
Nosso futebol aparece quando duela contra gente grande como a gente.
Isso não significa que não se possa montar uma grande seleção e disputar querendo o Mundial da África do Sul.
Temos jogadores em boas condições de formar um time de verdade, o que não aconteceu nesses dois amistosos e em quase todos os outros.
O time foi bem contra grandes adversários na Copa das Confederações ou nas Eliminatórias para o próximo mundial.
Assim mesmo, nestas, principalmente depois da classificação sacramentada foi aquela pasmaceira igual a de Omã.
Comecei falando sobre a ausência de pratas da casa em profusão, sobre falsas estrelas em formação e agora explico o porquê.
O Brasil foi muito mal nos recentes mundiais da categoria Sub-17 e Sub-20 disputados na Nigéria e no Egito.
Mesmo chegando à decisão do Sub-20 nossos garotos não mostraram nada do grande futebol brasileiro.
No Sub-17 o desastre foi imenso já que não passamos sequer da primeira fase.
Uma derrapagem vertiginosa para quem ostentava o título de campeão do mundo e que já agregara 3 estrelas em seu uniforme somando conquistas na categoria.
Costumo acompanhar esses certames para ter uma idéia mais aproximada possível do que nos reserva o futuro.
Muitas vezes perco o meu tempo com esse objetivo.
Pelos motivos expostos lá em cima e que não permitem a certeza de que a esperança de hoje será realidade amanhã.
Os próprios clubes que estão empenhados nessa reta de chegada do BR/09, com raras exceções, preferem comprar feito do que preparar o atleta.
Faz tempo que o Flamengo não é mais aquele que orgulhosamente proclamava: “craque o Flamengo faz em casa”. Bons tempos ...
Por mais incongruente que pareça vem na contramão o fato de que nossos clubes nunca investiram tanto na infraestrutura para os meninos bons de bola, promessas risonhas.
Há, porém, outros fatores que se entrecruzam nos diferentes interesses.
Para poder acompanhar o desenvolvimento verdadeiro desses meninos teria que estar de olho em todos os agentes FIFA que levam mundo afora jovens que nunca vimos por aqui e que vão se metamorfoseando para defender seleções estrangeiras.
Dentro desse tema é muito interessante uma vista de olhos sobre a seleção Sub-17 da Suíça, a campeã na Nigéria.
Os suíços foram campeões em cima dos anfitriões e uma decisão de excelente nível técnico foi disputada.
O time suíço é realmente muito bom e mereceu a conquista.
Agora, atenção : o principal jogador da Suíça chama-se Nassim ben Khalifa, um garoto de 17 anos de quem vocês ainda vão ouvir falar bastante.
E tem ainda o Kasami, o Gonçalves, o Rodrigues, enfim, uma verdadeira Liga das Nações.
Pouquíssimos nomes com som suíço, sejam de qualquer um dos cantões daquele país que ainda não os tem (os cantões) para os árabes e para os latinos, como aqueles nomes indicam.
Ou ainda um para sérvios, croatas, bósnios, outros nomes que ajudam a compor o excelente elenco da seleção de garotos suiços.
A Suiça se abre ao dinheiro sujo do mundo, adora que os estrangeiros façam também o serviço malcheiroso do país, mas vive torcendo o nariz aos imigrantes fazendo tudo para não permitir sua integração na sua vida social.
Não sei se são descendentes de imigrantes, se são os próprios ou se foram aliciados.
A sede da FIFA fica na Suíça.
O presidente Joseph Blatter gosta de futebol de verdade e, acredito, também de seu país.
Nada mais justo que ajudar na montagem de uma grande seleção para perpetuar sua passagem como máximo mandatário da entidade com conquistas futebolísticas de alto nível.
O que a Suíça jamais conseguiria com seus filhos naturais.
Suíços de sangue não são, suíços de carteirinha que sejam arrisco a dizer que tem bola para ganhar Copa do Mundo daqui a 4 ou 8 anos se seguirem jogando juntos.
É uma visão da globalização no futebol que não é nada interessante para o Brasil.
PS. O 19 de novembro me trouxe recordações as mais agradáveis com os amigos telefonando para ouvir e ver nesta rádio ou naquela televisão programas especiais sobre o milésimo gol de Pelé.
E dentro dos mesmos, como em todos os anos, a narração do lance que fiz à época para a Rádio Bandeirantes de São Paulo.
Simultaneamente as emissoras mostravam as barbaridades da atualidade futebolística com erros inaceitáveis de arbitragens (só erros?), brigas estúpidas entre jogadores, aquilo que escrevi lá no início.
Um verdadeiro teatro de horrores.
Como sou do bom e do belo a projeção do milésimo gol e a alegria por me sentir partícipe daquele momento tão importante na vida do futebol permitiram que passasse incólume por toda a parafernália da semana esportiva e conservasse intacto meu amor pelo verdadeiro futebol.
O de Pelé, o de alguns bons antecessores e sucessores.
Eles existiram e existem, podem crer.
Flávio Araújo, jornalista e radialista tem sua coluna semanal exibida às segundas-feiras na primeira página do site. Para leitura da mesma e anteriores nos outros dias da semana é só buscar no link especial onde as mesmas estão arquivadas.
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