Ribeirão Preto, 9 de Fevereiro de 2012
[ Busca avançada ]

04/01/10 - 07h50

A São Silvestre tinha um toque de magia que dominava a todos: Do narrador ao público e os atletas

Tamanho da letra: A- A+

Fonte: Fonte: Flávio Araújo : flaypi@uol.com.br

Meu caçula correu a São Silvestre no último dia de 2009.

Estava lá desfilando sua juventude (de quarentão, diga-se, que para mim todos os que tem menos de 50 são jovens) pelas ruas quase sempre molhadas de São Paulo.

Realizou um sonho não apenas seu, mas alimentado ao longo dos anos por praticamente todos os seus irmãos mais velhos.

Que sonharam, mas não chegaram como ele às vias do fato. 

Sílvio Américo materializou o desejo onírico dos demais.

Ao lado, ou próximo o quanto foi possível na imensa nebulosa humana  que se formou, na condição de estrelas naturais do percurso, estava o meu querido amigo José Eduardo Martins, um dos maiores pianistas deste país e já veterano da competição a que compareceu no ano passado com uma mensagem significativa, humana, emocionante.

E Invulgar.

José Eduardo é uma figura admirável de brasileiro que não esconde seu DNA lusitano e o dignifica subindo com o mesmo aos cumes da altanaria e civilidade.

Contou-me Zé Eduardo que seus devaneios de correr a São Silvestre nasceram quando, bem jovem, ao lado do pai, o sábio José Martins Filho, dois pares de bons ouvidos colados a um aparelho de rádio ouviam as transmissões que o locutor  - transmudado pelo tempo em redator – levava até eles na última noite do ano.

Essa citação me remete aos tempos da São Silvestre noturna com saída e chegada na Avenida Cásper Líbero, pertinho das Estações ferroviárias da São Paulo de então.


Saia na frente da vanguarda que deixava a parte fronteira do Edifício onde ficavam a Rádio Gazeta e a flamante A Gazeta Esportiva, a patrocinadora e organizadora da competição.

Literalmente amarrado por cordas à carroçaria de uma das viaturas da emissora.

Era dessa forma que via, por um largo e sequente período um Novo Ano raiar.

Não havia televisão e com a ausência de suas muitas câmeras não se podia, como os colegas da atualidade, fazer uma transmissão plena de detalhes de um estúdio abrigado e confortável.

Havia a necessidade de ir a campo e se ombrear aos participantes e as indefectíveis motocicletas da Polícia Militar de São Paulo para que meus  olhos pudessem visualizar algo e transformar essa parca visão em sons entusiásticos.

A SS tinha algo de magia para o jovem locutor e para o público que lotava as ruas onde passavam os participantes.

Bem amarradinho ao meu posto eu me considerava um deles.

E a narração que o microfone filtrava era distribuída generosamente para todo o hemisfério, creiam.

O por quê ?

Acontece que a prova de então não era uma disputa de brasileiros contra quenianos ou até mesmo de africanos contra africanos como aconteceu na última quinta-feira.

O primeiro brasileiro só surgiu depois de sete estrangeiros.

Não havia reserva de mercado e no caso, só se esse preceito se estendesse aos países participantes e não às individualidades.

Além dos europeus competiam sempre atletas do México, da Colômbia, do Equador, do Chile, Argentina, Uruguai e vai por aí afora.


Como as transmissões em Ondas Curtas eram mesmo potentes tornava-se comum a cadeia que conosco faziam diversas emissoras de países que tinham competidores correndo pelas ruas de São Paulo.

Pela dificuldade nas comunicações nosso som era aleatoriamente colocado no ar nos mais diversos países da Costa do Pacífico.

Depois de dois ou três dias começavam a chegar os telegramas da All América Cables com as informações dessas emissoras dando conta (além das saudações costumeiras) de como a transmissão fora recebida.

Quase sempre um “canhão”.

Hoje, mudou a São Silvestre?

Ou mudamos nós?

Como o Natal de Machado de Assis, no seu célebre conto “A Missa do Galo” creio que é “sim” a resposta para ambas.

Ante a força do progresso a minha voz, ou minha escrita, como nos versos  de Noel Rosa, silencia.

Que ressoem em mim apenas as lembranças e que estas possam servir aos mais jovens sem nenhum sentido de dicotomia entre uma e outra época ou de que o ontem foi melhor do que o hoje e vice-versa.

Só reforçando a frase que diz que recordar é viver.

Ainda me recordo, logo ... 

E se estou vivo aproveito para desejar um FELIZ ANO NOVO a todos vocês que me acompanharam até aqui desejando que estejamos juntos também em 2010.

Flávio Araújo, jornalista e radialista escreve semanalmente neste site. Consulte edições anteriores clicando no link: Coluna de Flávio Araújo.      

Comente a notícia no Facebook























Notícias Relacionadas

© 2002-2012 Ribeirão Preto Online - Um novo jeito de ver Ribeirão. Todos os direitos reservados.

Ribeirão Preto Online, Ofertas de Veículos e Imóvel da Cidade são produtos da Empresa Brasileira de Mídia Online. É proibida a reprodução do conteúdo deste portal em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem prévia autorizaçao.