Ribeirão Preto, 25 de Julho de 2014
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12/09/11 - 16h29 (Atualizado em 12/09/11 às 04h31)

Enem 2011: redação pode ser decisiva no exame; veja dicas para se sair bem

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Fonte: Ribeirão Preto Online

Marcado para os dias 22 e 23 de outubro, o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) terá quatro provas objetivas, com 45 questões de múltipla escolha. Além disso, no segundo dia de exame, os candidatos devem desenvolver uma redação, item que pode ser decisivo na nota final.

Para tirar algumas dúvidas sobre a redação do Enem, o Ribeirão Preto Online conversou com o professor de língua portuguesa e literatura brasileira Jefferson Cassiano.

Cassiano é mestre em Estudos Literários pela Unesp (Universidade Estadual Paulista). Ele ocupa, desde dezembro do ano passado, uma cadeira na Academia Ribeirão-pretana de Letras.


Ribeirão Preto Online - No que o aluno deve prestar atenção no dia a dia para se sair bem na redação?

Jefferson Cassiano - A prova de redação do Enem é diferente. O candidato precisa ficar atento ao mundo em sua volta para se sair bem. Ficar limitado ao conteúdo de livros e apostilas pode mais atrapalhar que ajudar. Até onde podemos analisar, já que há muita “neblina” em torno dos reais critérios e da metodologia de correção do Inep, o que os examinadores esperam é um candidato capaz de usar suas próprias ferramentas para interferir em situações-problema.  Ler jornais e revistas, conversar com pessoas inteligentes e sensíveis e, principalmente, valorizar suas experiências e refletir sobre elas vale muito.


Basta ter apenas o conhecimento gramatical e domínio da escrita padrão?

De maneira geral, o domínio da norma-padrão da língua portuguesa não parece estar entre as principais preocupações do Inep.  Mais importante é a leitura da realidade. É preciso, no entanto, que se faça uma observação sobre isso.  Vários candidatos, alunos meus e de colegas, reclamam da falta de critério para a correção dos textos. Muita gente confessadamente ineficiente no uso da modalidade escrita da língua tem recebido notas muito altas. O contrário também é muito comum: alunos bem avaliados em cursos de redação aparecem com notas abaixo de 600 (de zero a 1.000).  É difícil pensar que um escritor que use precariamente a norma-padrão seja capaz de escrever com coesão e coerência. Normalmente, há um desenvolvimento global das habilidades e competências relacionadas ao texto, o qual a correção do Enem não tem sido capaz de avaliar.  


Você arrisca alguns assuntos que podem ser tema da redação deste ano?

Nunca faço isso. Existe um mito de que professor de redação bom é aquele que “acerta” o tema dos exames. Alguns cursos fazem disso uma ferramenta de venda. Sugerem uma lista de cem temas e, claro, acabam “adivinhando”. Prefiro que os candidatos estejam prontos para todos os temas polêmicos que possam ser apresentados. No Enem, o usual até aqui são os temas mais próximos da realidade do candidato.


A leitura de jornais, revistas e sites de notícias é importante?

A leitura é importante.  Sobretudo, a leitura crítica de mundo. Importa menos o que se lê e mais como isso é feito. Ler sem consciência é tão útil quanto não ler, e ainda apresenta o malefício de iludir o candidato sobre uma preparação que de fato não ocorreu.  Além disso, é necessário cuidar da variedade da leitura. Ler só a Veja ou só a Carta Capital é um erro comum.


Há uma determinada ordem que o aluno deve seguir para estruturar bem a redação?

Esse é outro mito que precisa ser derrubado. Nem o Enem nem a Fuvest valorizam a repetição de receitinhas para textos da tipologia dissertativa. Dizer que a melhor dissertação é aquela que apresenta uma tese no primeiro parágrafo, três argumentos nos parágrafos seguintes e a conclusão, nessa sequência única, é confundir estrutura e projeto.  Na estrutura da tipologia dissertativa, há elementos obrigatórios: tese, argumentos e, óbvio, conclusão. Daí a afirmar que há uma ordem para apresentar esses elementos é ingenuidade ou preguiça. Dissertar é debater. O texto deve ser projetado pelo candidato da maneira que ele, o autor, achar mais convincente, mais persuasiva, desde que os elementos estruturais estejam no texto.


A redação deve ser feita no formato dissertativo-argumentativo. Como é esse formato?

Em princípio, uma dissertação pode também ser apenas expositiva, sem a intenção de convencer o receptor do texto.  Existe, no entanto, um consenso de que a dissertação, ao menos a que se pratica hoje, deve ser argumentativa: uma tese ou ponto de vista sobre um tema é sustentada com argumentos.  Essa é a exigência do Enem, que espera um texto em torno de 30 linhas. 


O aluno pode ficar “em cima do muro” ou é obrigatório ter uma opinião clara sobre o tema?

Cuidado com essa história de “ter uma opinião clara sobre o tema”.  Alguns alunos confundem ter opinião clara com estabelecer posições do tipo “a favor” ou “contra”. Poucos são os temas que permitem um posicionamento tão simples. É mais comum que as propostas exijam que o candidato avalie um tema complexo que pede um raciocínio mais dialético, que tente chegar a uma síntese. Por exemplo: como ser contra ou a favor do preconceito na sociedade contemporânea? Se o tema fosse esse, o candidato teria que pensar numa tese mais complexa, já que o preconceito é inevitável e de nada adianta tentar defender uma tese ingênua como “sou contra o preconceito”.  Assuma uma posição, mas problematize o tema antes.


Além de argumentar é preciso que o aluno indique uma solução para a problemática apresentada? Qual a melhor maneira de fazer isso?

Para a redação do Enem, é muito importante apresentar uma interferência na realidade, o que pode ser entendido como uma solução.  Uma boa maneira de fazer isso é encaminhar seu texto para essa interferência, a qual funcionaria como uma conclusão.  Tente ser objetivo e específico.  O Inep espera que a sua interferência seja aplicável, factível e não um delírio idealista.  Mantenha os pés no chão e a cabeça em sua experiência de vida.


A redação deve ser escrita já nos padrões da recente reforma ortográfica? Isso é avaliado?

Não é provável que o maior ou menor domínio de regras ortográficas seja o principal critério do Inep. Ao menos não é essa a impressão que os exames anteriores deixaram. Como há uma impossibilidade de acesso à correção das redações, o que nos deixa sempre desconfiados dos critérios e técnicas de avaliação dos mais de quatro milhões de textos do Enem, parece prudente, apesar das suspeitas, utilizar a ortografia padrão vigente, que inclui as regras do acordo ortográfico. 

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