28/05/10 - 08h48
Fonte: Renata Canales : re3canales@hotmail.com
Renata Canales
“Você tem todo o meu amor. E sempre terá”. Essa é a frase que resume a dedicação de um pai que faz tudo para proteger o filho em um mundo pós-apocalíptico. A Terra está totalmente destruída por terremotos, erupções e incêndios. Poucos são os sobreviventes e a maioria tornou-se canibalesca. A meta de pai e filho é chegar ao sul do país, como se lá existisse alguma esperança de vida. Eles têm fome, estão sujos e sofrem com a ausência da mãe/esposa que optou pelo suicídio. Em um carrinho de supermercado, restam as parcas lembranças da época em que os três resistiam a esse fim de mundo. São poucas coisas como um resto de comida, uma ou duas blusas, e livros com historinhas infantis que o pai lê, a luz da chama de uma pequena vela, para que o filho adormeça e, quem sabe, possa em algumas horas de sono sonhar em ser feliz. Eles enfrentam um cenário cinza, encontros com saqueadores que perderam a humanidade e, apesar destes desafios, tentam apaziguar a dor do outro com um sentimento tão forte que transborda a tela e atinge o coração do espectador.
O filme “ A Estrada”, de John Hillcoat, é uma história de amor, das mais bonitas já passadas no cinema. É verdade que relação pais e filhos, de uma maneira geral, emociona mesmo, mas o que esse filme talvez tenha a mais é que provoca inveja de ver um amor tão intenso, uma cumplicidade tão singular. Eles compartilham o desespero, a vontade de morrer, a alegria de um banho, a esperança de encontrar no fim dessa estrada novamente a vida.
As interpretações são brilhantes. Viggo Mortensen tem essa capacidade, que poucos conseguem, de fazer a gente esquecer que ele é um ator, e que aquele é um personagem. Em “A Estrada”, ele não deixa traços do mocinho Aragon em “ O Senhor do Anéis”, nem do vilão de “Marcas da Violência” , nem de mafiosos, ou de homens bons. Ele é simplesmente o pai daquele menino. Por sinal, o garoto está também fantástico. Levando sempre nas mãos um ursinho de pelúcia, ele parece reter assim a infância roubada. É o segunda longa de Kodi Smit-McPhee que estreou trabalhando com Eric Bana, em 2007. O engraçado é ele ser parecidíssimo com a atriz Charlize Theron que faz sua mãe em “ A Estrada”. Outro momento de grande atuação é quando pai e filho encontram um velho interpretado pelo genial Robert Duvall. Ele está irreconhecível em uma maquiagem de primeira que não só envelhece sua pele, mas que dá a ela a aparência da dor e da sujeira em que se vive nessa paisagem sem vida.
Para quem gostou das peripécias de John Cusack no filme 2012 enfrentando o fim do mundo como uma grande aventura, nem imagina o quão doloroso é estar vivo depois deste fim. “ A Estrada” é a parte sentimental desse filme de ação que retrata o apocalipse proferido pelos maias.
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