14/06/10 - 08h34
Fonte: Matheus Arcaro: matheus@abelharainha.com
À memória de Augusto dos Anjos
As moscas circundam
A luz amarela-meningite
Como as baratas sobrevoam
Os pensamentos pútridos da serpente.
As entranhas da grávida estão pretas,
Os gestos do padre, imundos.
O jantar, damas e cavalheiros:
Merda à moda com pústulas amanhecidas.
Digestão em andamento,
Bílis, desejos ao vento,
Confio meu amor próprio
A bigatos bígamos.
Devolvem-me apressados,
Está gangrenado,
Com a data de validade vencida!
No formol o mergulho,
Como se em julho,
Ao adubarmos a terra,
Florescessem margaridas.
Meu coração,
Enferrujado pelo mofo do olhar alheio,
Cospe fel às artérias do mundo.
Meu cérebro,
Destronado pelo baço,
De braços dados com a oração escarrada,
Assiste passivamente
À vida sangrando pelas juntas.
Autopsiando o passado,
Vislumbro meu futuro:
Sentir-me-ei humano
Até que os vermes se aconcheguem na minha carne,
Beijando diariamente a boca necrosada da esperança.
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