08/06/10 - 08h14
Fonte: Dra. Julieta Ueta : julietarponline@gmail.com
QUAIS CONDIÇÕES CLÍNICAS PODEM SER TRATADAS COM TERAPIAS DE GENES E DE CÉLULAS
O homem já conquistou o gene e as células já faz um bom tempo. Tem feito grandes revoluções, tão grandes que talvez a maioria absoluta das pessoas não perceba o que já aconteceu. Muitas das descobertas do homem buscam tratamentos para o homem em situações de doenças ou condições clínicas desfavoráveis.Outras descobertas levam a estes tratamentos. Na conquista, no desvendar dos genes e das células muitas descobertas aconteceram que levaram a encontrar caminhos inovadores para a terapia ou tratamento sejam de animais ou vegetais. Assim o homem foi capaz de sintetizar genes e já se fala em células sintéticas, genoma sintético
Estas descobertas abriram novos horizontes para tratamentos ou terapias de indivíduos com diversos tipos de doenças, algumas doenças raras. O homem conquistou outras formas de tratamentos ou terapias além das com procedimentos cirúrgicos, medicamentosos. As novas terapias: genética e celular estão sendo investigadas, pesquisadas, desenvolvidas para substituir tratamentos existentes ou inexistentes. Indivíduos com doenças crônicas podendo se livrar delas.
As desordens genéticas ou hereditárias têm algumas características interessantes. Genes ou cromossomas apresentam anormalidades, mas algumas delas são capazes de causar doenças letais.
Passado os meus tempos de estudo nas salas de aula, recordo-me de ter estudado uma doença mortal causada pela deficiência em um único gene que tem a informação para produzir uma enzima de nome adenosina deaminase.
O que acontece com alguém que não tem adenosina deaminase? Este alguém desenvolve uma deficiência imunológica séria, tão séria que a doença é fatal e conhecida como Imunodeficiência Combinada Severa ou SCID. SCID não é causada somente pela deficiência em adenosina deaminase mas esta deficiência é responsável por 15% dos casos de SCID. Outras síndromes também causam esta imunodeficiência.
A doença ficou famosa faz um tempo por causa de um menino de nome David Phillip Vetter, nascido em 1971 no Texas, EUA 1971 – February 22, 1984) que vivia em uma bolha de plástico. A bolha foi a solução ou tratamento encontrado para evitar qualquer risco de infecção. David morreu aos 12 anos, em 1984. Um filme de 1974 contando a história dele foi vivido por John Travolta (The boy in the plastic bubble).
Foram empregadas as tecnologias mais revolucionárias da época para salvar David Vetter inclusive um transplante de medula óssea não compatível de sua irmã. David morreu de câncer em 1984. Hoje a ciência e os tratamentos evoluíram. Antes de falar sobre eles me lembro de uma outra doença relacionada a um gene defeituoso.
Nos bancos escolares entrando em contato com a genética aprendi fascinada o papel dos genes. O que estes genes fazem, como eles guardam a informação precisa de uma proteína, são os códigos da vida. Se conseguem manter a vida, qualquer erro neles pode causar problemas com o indivíduo, não? Ainda bem que nem sempre é assim. Convivemos, vivemos, lutamos e vamos em frente com estas falhas sem conseqüências. Acontece que assim como acontece com a deficiência na produção de adenosina deaminase definida por seu gene, há uma outra minúscula falha em um único tijolo estrutural (uma base do triplet que codifica pra um amino ácido) que leva à formação de um amino ácido errado que leva à formação de uma hemoglobina errada, que provoca uma doença conhecida como anemia falciforme .
Estas duas doenças pelas características ligadas a um único gene tem sido alvo de muitos estudos e uma das grandes revoluções tem sido o desenvolvimento de tratamentos diferentes do que os medicamentos. Embora haja medicamentos que possam tratar os indivíduos com estas doenças, não representam cura. Transfusões, tratamentos com a enzima adenosina deaminase, transplante de medula óssea são alternativas terapêuticas que podem levar indivíduos a uma vida quase normal.
TRATAMENTO COM O GENE OU TERAPIA GÊNICA.
Os pesquisadores têm desenvolvido técnicas para tratar os indivíduos que tem estas doenças e um processo definitivo se funcionar é o da terapia gênica. A terapia gênica significa um tratamento em que um gene sadio que funciona é colocado no organismo do indivíduo doente. Desta forma começa a produzir o que tem que produzir sem defeito, seja uma HEMOGLOBINA NORMAL ou uma ADENOSINA DEAMINASE NORMAL. Se estas proteínas forem produzidas normalmente o indivíduo deixa de ter a doença. O grande segredo é como colocar o gene no indivíduo de maneira que ele funcione. Você há de concordar comigo que não da para tomar um comprimido de gene, uma cápsula ou uma injeção. Os cientistas tiveram que aprender sobre o gene, isolar, confeccionar ou sintetizar e colocar o gene em alguma coisa para ele fazer seu papel e depois de tudo ver se funciona. Injeções intramusculares de DNA, ou seja, do gene foram feitas, obtendo um pequeno sucesso, mas outras técnicas se mostraram muito mais efetivas. Uma grande revolução, você não acha?
O primeiro caso de terapia gênica autorizada nos Estados Unidos foi em 1990, no National Institutes of Health (NIH) em uma garotinha de 4 anos chamada Ashnati de Silva que tinha a imunodeficiência devido ao gene da ADA.
Um jeito de colocar o gene para funcionar no organismo doente é usando um vírus.
1. As células são removidas do paciente.
2. No laboratório, um vírus é alterado para não se reproduzir.
3. Um gene é inserido neste vírus.
4. O vírus alterado é misturado com as células do paciente.
5. As células do paciente tornam-se geneticamente modificadas e carregam o gene saudável.
6. As células geneticamente alteradas produzem a proteína desejada.
Um grande grupo de pesquisadores, clínicos, médicos de diferentes países de diferentes hospitais e universidades (Itália, Áustria, Israel, Arábia Saudita, Suíça, Alemanha, Estados Unidos) fizeram um trabalho de longa duração com pacientes com síndrome de imunodeficiência combinada e severa (SCID) que foi publicado em uma revista americana de grande reputação no início de 2009. O estudo foi realizado com 10 pacientes com deficiência na enzima adenosina deaminase (ADA). Todos os estudos anteriores apesar do sucesso no tratamento, apresentaram problemas de uma ou outra natureza.Por outro lado, sempre se mostraram promissores em relação ao uso da terapia gênica.
Neste estudo de 2009 os pacientes receberam uma infusão de células da medula óssea que foram “infectadas” com um retrovírus que tinha o gene para ADA. A esperança de cura está na capacidade do gene produzir a enzima. Os resultados com os 10 pacientes mostram que todos estão vivos. Estão no estudo por períodos de quase 2 a 8 anos. Dos 10, 8 não precisam de nenhuma terapia com a enzima porque já conseguem produzi-la. Nove conseguiram uma reconstituição imunológica. Outros detalhes do trabalho você pode encontrar no artigo de Alessandro Auiti e vários colaboradores no NEJM The New England Journal of Medicine Volume 360(5), 2009,p 447–458 ou no meu blog .
Em linhas gerais quer dizer que o estudo mostra que se pode utilizar a terapia com genes para curar indivíduos com doenças que se entendem como incuráveis.
Que outras condições clínicas críticas podem ser tratadas com genes? Doenças do sangue como a anemia falciforme, a fibrose cística, talassemia e esperanças há para doenças de Huntington.
O ano de 2006 foi especialmente promissor para esta nova forma de tratamento ou terapia. No mesmo National Institutes of Health (NIH) nos Estados Unidos foi realizado o primeiro tratamento com sucesso contra um melanoma metastático, um câncer que já se espalhava, empregando terapia gênica e m 2 pacientes. Neste mesmo ano foi anunciado por um grupo de pesquisadores internacionais o sucesso terapêutico de 2 pacientes sofrendo de doenças afetando as células mielóide. Um novo passo.
Um grupo italiano foi capaz de lançar luz ao problema da rejeição causada pela terapia gênica. O organismo em tratamento entende que o gene é estranho e assim o rejeita. Estratégias para evitar esta rejeição forma desenvolvidas.
Avanços mais concretos são esperados com a terapia empregando genes.
TRATAMENTO COM CÈLULAS ou TERAPIA CELULAR
As doenças que acometem o homem, muitas vezes, não têm causa nos genes e assim não se consegue encontrar resposta com a terapia gênica. Algumas doenças se desenvolvem ou porque o organismo tem células com defeitos ou porque as células morrem, ficam defeituosas ou adoecem. Células do coração por exemplo tendem a sofrer problemas e chegam a morrer quando o indivíduo não cuida bem deste órgão to importante. Na verdade, todos os órgão são importantes. Quando o coração fica fraco empregam-se fármacos ou medicamentos que fortalecem ou coração, lhe dão mais força como os cardiotônicos. Se o coração bate forte demais há medicamentos para controlar os batimentos cardíacos e assim muitos medicamentos foram desenvolvidos. Algumas vezes os medicamentos não resolvem e o coração não dá conta. De repente puff, ele pifa. Algumas vezes acontece um milagre, alguém morre, mas o coração não e dá para se fazer um transplante de órgão inteiro. Infelizmente, não temos tantos corações assim.
Um jeito de se tentar recuperar este coração doente, de recuperar as porções que sofreram dano é fazer com que as células regenerem.
Acredite você ou não! Tem gente que estudou, estudou, tentou, tentou e percebeu que era possível criar células de coração humano. E ainda mais, células podem se tornarem células do coração ou de qualquer órgão desde que elas sejam células embrionárias. São as chamadas células-tronco embrionárias que se transformam em qualquer tipo de células, até células nervosas. É tornar realidade o que o ator que viveu o Super Homem na tela, Christopher Reeves tanto sonhava: regenerar células nervosas para que ele pudesse voltar a andar! Cientistas coreanos afirmaram ter conseguido tal feito com uma mulher de 37 anos que sofreu dano irreparável na espinha dorsal. Transplantaram células-tronco pluripotentes de células do sangue de cordão umbilical.
A questão do uso de células tronco embrionárias, coração isolado esperando o outro ficar velho e inútil, clonagem trouxe para o público uma grande discussão BIOÉTICA. Muito importante esta discussão.
Mas com a descoberta das células tronco adultas presentes em muitos tecidos do nosso próprio organismo mantendo a capacidade de se transformar em qualquer tipo de célula tiraram o sono de muita gente. Estas células mestre são capazes de regenerar, transformarem nas células necessárias, curando os indivíduos. Ficou clara a possibilidade de se empregar células pra tratamento. Indivíduos doentes com o coração falhando poderiam voltar a ter um coração normal se fossem submetidos à terapia celular.
Também se pensou na possibilidade de se tratar indivíduos que tivessem doenças por conta de células defeituosas ou falta delas. É o caso dos pacientes com diabetes tipo 1. Esta é uma doença auto imune. De repente o organismo do indivíduo passa a produzir anticorpos contra as células que produzem insulina, matando estas células. Se através da terapia celular se fornecesse células-tronco para se tornarem células produtoras de insulina, adeus diabetes tipo 1.
Entre muitos grupos de pesquisadores e médicos que trabalham com terapia celular há grupos de brasileiros fazendo “milagres” com ela.
Um dos casos é descrito no documentário da Discovery (DNA: a promessa e o preço) onde se relata que um paciente cardíaco, brasileiro, com quadro grave após vários infartos foi submetido à terapia celular. Células-tronco são capazes de se tornarem células do local onde foram colocadas. O coração não tem praticamente células tronco e ai não consegue se regenerar. A pergunta é: podem células de um outro local se transformarem em células cardíacas se lá forem injetadas?
Emerson Perin, um brasileiro e James Willerson do Texas Heart Institute acreditavam que sim e retiraram células da medula óssea e transplantaram as células em locais do coração do paciente cardíaco. O coração de Nelson, o nome do paciente melhorou. Seu coração ganhou um fluxo de sangue e de oxigênio que acabaram com sua total falta de ar. Atualmente ele faz exercícios, corre na praia e joga futebol. Não há dúvidas de que seu coração regenerou e a vida de Nelson sofreu uma reviravolta. Esta é uma das promessas da terapia celular.
Outro caso de sucesso está acontecendo aqui bem mais perto do que você pensa: em Ribeirão Preto, a “cidade do stock-car de rua”. No Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP, um grupo de médicos e pesquisadores vem trabalhando com células-tronco adultas pra tratar pacientes com diagnóstico recente de diabetes do tipo 1. Aquela diabetes que mata as células que produzem insulina (http://www.ribeiraopretoonline.com.br/saude/coluna-da-dra-julieta-ueta-os-membros-que-o-diabetes-amputa-como-salva-los/35980).
Pacientes diabéticos tipo 1 selecionados foram submetidos a tratamento com células, ou melhor, submetidos a transplantes de células hematopoiéticas, recuperaram a capacidade de produzir insulina e se tornaram totalmente independentes da injeção de insulina. Além do mais os níveis de açúcar no sangue estão totalmente controlados. Foram seguidos por um período de de 7 a 58 meses, dependendo do paciente. O trabalho deles foi publicado em uma das mais conceituadas revistas médicas. Bom para todos, bom para o Brasil e acima de tudo bom para os pacientes daqui e do mundo.
Se você ficou com dúvidas em relação a terapia genética ou a terapia celular pode procurar se esclarecer, caso se interesse. Caso contrário lembre-se que para os leigos, para a população em geral, o mais importante é saber se o sucesso destes estudos todos deixa os pacientes bem. O resultado para o paciente é o que importa.
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